sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mostra de Cartuns e Fotografias sobre o Meio Ambiente recebe trabalhos de chargistas e repórteres fotográficos até 20 de agosto

Chargistas e repórteres fotográficos poderão participar da mostra realizada no V Encontro de Jornalistas de Imagem que acontece paralelamente ao 35º Congresso Nacional dos Jornalistas em Rio Branco, Acre.

A Mostra de Cartuns e Fotografias sobre o Meio Ambiente, tema do Congresso, faz parte da programação do encontro e será realizada no primeiro dia de evento (7/11).

Os trabalhos ficarão expostos durante a semana do Memorial dos Automistas, localizado no centro da cidade. Cada Sindicato participará da exposição com duas charges e duas fotos relacionadas ao meio ambiente.

Poderão enviar trabalhos chargistas e repórteres fotográficos associados ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG). O material deve ser encaminhado à secretaria do Sindicato entre 9h e 18h até o dia 20 de agosto – Avenida Alvares Cabral, 400 - para análise e seleção. As fotos devem ser digitalizadas com resolução 300 dpi, no formato 30 cm x 40 cm, enviadas com dados do autor e descrição. Os selecionados receberão Certificado de Participação assinado pelos promotores do evento.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Na América Latina e Caribe agricultoras familiares produzem 45% dos alimentos consumidos


Camponesas para a soberania alimentar

Por Lívia Duarte
Na América Latina e Caribe as agricultoras familiares produzem 45% dos alimentos consumidos. Inegável, portanto, a importância do trabalho delas para o cotidiano. Nesta entrevista, Vanessa Schottz (da Fase – Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional) e Elisabeth Cardoso (do CTA/ZM – Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata) lembram que este trabalho é silencioso, invisível e, também por estas razões, desvalorizado por boa parte da sociedade.

As entrevistadas, que são do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), falaram também de políticas públicas para mulheres no campo e avaliaram a Cúpula dos Povos. Durante o evento, a participação das mulheres chamou a atenção desde a marcha, que abriu a série de manifestações que tomaram as ruas do Rio de Janeiro, até as diversas atividades autogestionadas realizadas por elas. Foi a partir desses espaços que a discussão sobre o papel das mulheres na sociedade hoje – e naquela que os grupos querem construir – foi tomando corpo até a afirmação do feminismo como ‘instrumento da construção da igualdade’ na Declaração Final da Cúpula.

O documento incluiu também a “autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade, e o direito a uma vida livre de violência”, como premissas a serem defendidas pelos povos. Saiba mais sobre a luta das mulheres camponesas na entrevista realizada originalmente para o programa Planeta Lilás, organizado por militantes feministas na Rádio Cúpula dos Povos: 

Qual papel das mulheres na agricultura camponesa?

Vanessa Schottz – Esta pergunta é importante porque nos dá a oportunidade de dizer que as mulheres não ajudam na agricultura, as mulheres trabalham na agricultura. Elas estão na produção de alimentos. Elas estão no resgate e na conservação das sementes. Elas estão nos processos de resistência nos territórios, contra o agronegócio. Elas estão no cuidado com a alimentação. As mulheres assumem uma papel importante – e protagonista – neste momento em que estamos discutindo sustentabilidade, mas também estamos discutindo soberania alimentar. As mulheres têm um papel fundamental tanto na bandeira de luta da soberania alimentar quanto nas práticas agroecológicas e nas práticas de consumo sustentável. Elas estão em vários espaços, fazendo as suas lutas no dia-a-dia, e também se organizando e lutando para garantir a visibilidade do seu trabalho.

Elisabeth, você pode dar um exemplo das mulheres lá da Zona da Mata, sobre o papel que elas cumprem, para entendermos melhor essa afirmação da Vanessa?

Elisabeth Cardoso –
Na Zona da Mata, em Minas Gerais, temos um bom exemplo. Lá é forte a crença de que o que sustenta a região é a produção de café. As mulheres estão presentes – e são fundamentais – na produção do café. E isso é sempre bom lembrar. Mas elas têm descoberto recentemente ter um papel muito mais importante como produtoras de alimentos. Elas coordenam todo o trabalho de produção dos quintais: das plantas, das hortas e da produção de animais. No nosso trabalho com agroecologia na região, criamos um calendário para que elas anotassem produção e consumo. Fizemos isso porque geralmente não se valoriza muito a produção para o autoconsumo. E elas se assustaram depois de cerca de três meses quando perceberam que o equivalente de renda gerado pelo autoconsumo é superior à renda gerada pelo trabalho com o café. Isto é emblemático em relação à história da produção das mulheres. O trabalho delas acaba invisível porque o autoconsumo não está no PIB (Produto Interno Bruto) e não é contabilizado em nenhuma economia – nem para os municípios, nem para a família. Perceber que o trabalho delas gerava mais renda que o café foi importante para elevar a autoestima e para que elas se percebessem como fundamentais no trabalho de produção. Se não fossem as mulheres fazendo esse trabalho de produção para o autoconsumo, a agricultura familiar no Brasil não se sustentaria. A renda da agricultura familiar hoje na comercialização de produtos, mesmo acessando os mercados institucionais, só é suficiente por causa da produção familiar para o autoconsumo. Os agricultores familiares compram muito pouca coisa fora das suas propriedades. Na Zona da Mata de Minas temos valorizado bastante este fato, não só no que se refere à produção de alimentos, mas também com a produção de medicinas naturais, muito importante para a manutenção da saúde das famílias. Uma das principais pautas desta Cúpula dos Povos foi a luta contra a “mercantilização da vida”. E aí falamos não apenas da natureza, das florestas, dos serviços ambientais, mas também dos modos de vida.


Valorizar a produção para o autoconsumo é um jeito de fugir do mercado?

Vanessa – É isso. E se a gente parar para pensar, não existe nada mais radical na luta por soberania alimentar do que a produção para o autoconsumo. Porque é a via da alimentação sem passar pelo mercado. E é justamente isso que o mercado tenta desconstruir de várias formas. Uma é a ocupação dos territórios com monocultura – porque, sem diversidade, as famílias ficam dependentes da compra de produtos nas grandes redes de supermercado. Outra maneira é a publicidade que estimula o consumo dos produtos industrializados. Então essa prática do autoconsumo, que está muito ligada ao trabalho das mulheres, é fundamental no movimento de resistência contra o agronegócio, contra o uso do território para a produção de monocultivo para a exportação. É uma prática que precisamos valorizar e dar visibilidade. E é importante dizer também que as mulheres não estão apenas trabalhando para o autoconsumo. Entre as mulheres que compõem o GT de Mulheres da ANA vemos que um g rande número comercializa sua produção para feiras e também para o mercado institucional de alimentos via PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), apesar de enfrentarem muitas dificuldades. A questão é que as políticas públicas, da forma como estão estruturadas, não consideram o trabalho e as necessidades das mulheres. E vocês podem dar exemplos que explicam por que essas politicas são insuficientes para atender às necessidades das agricultoras? Vanessa – São várias questões. Por exemplo, para que qualquer agricultor ou agricultora acesse as políticas públicas para agricultura familiar no Brasil é necessário acessar o “Documento de Acesso e de Aptidão ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar)”, que chamamos de DAP. O DAP tem uma série de problemas, e passa pela lógica de que é um documento “familiar”, no qual cabe sempre ao homem o protagonismo. Então, se na família o homem é professor ou agente comunitário de saúde e a mulher é agricultora, ela não consegue ter sua profissão reconhecida. Ou seja, muitas mulheres estão produzindo, não conseguem acessar esse documento e, portanto, não conseguem ser reconhecidas como sujeito por essas políticas. Outras tantas vezes, os homens apresentam os documentos e recebem o dinheiro pela esposa. Achamos que isso é muito ruim, pois além de impedir a visibilidade do trabalho delas, impede o acesso à renda, um el emento que consideramos importante para o processo de construção de autonomia. Acreditamos que autonomia econômica e autonomia política são vias que precisam andar juntas para permitir uma relação de igualdade entre homens e mulheres.

Vocês estão falando a partir do GT de Mulheres da ANA. Beth, você pode explicar porque existe e como funciona este Grupo de Trabalho?

Beth – A ANA é uma rede formada por redes regionais e movimentos sociais de todo o Brasil, que é organizada internamente por Grupos de Trabalho. O Grupo de Trabalho das Mulheres é um espaço de auto-organização, a partir do qual refletimos sobre questões de gênero, por exemplo, a partir do nosso olhar sobre as políticas públicas. Também fazemos um trabalho de sistematização de experiências de mulheres na agroecologia que ajuda nesta reflexão. A partir do GT de Mulheres refletimos também sobre a própria ANA. Para conhecer melhor a articulação vale a pena ver a página na internet: www.agroecologia.org.br. Ali é possível encontrar uma publicação do GT de Mulheres com as experiências sistematizadas na região Nordeste – também estamos sistematizando experiências do Sul e da Amazônia, mas ainda não estão publicadas. É um trabalho muito rico porque a partir das experiências das mulheres aprendemos mu ito. Inclusive, acho que isso é uma reflexão para a ANA como um todo. Uma coisa que a gente se esforça também é para que em todos os espaços da ANA haja participação das mulheres. Acreditamos que a articulação é um espaço democrático e por isso ficamos até tristes se em um evento misto não haja, pelo menos, 50% de mulheres.

E o que acharam da Cúpula dos Povos? Vai fazer alguma diferença no futuro?
Vanessa – Eu acho que a Cúpula dos Povos cumpriu o seu papel de dar visibilidade, primeiro às críticas que fazemos às falsas soluções do capital com o nome de “economia verde”, com a justificativa de superar uma crise que “eles” próprios causaram. Ao mesmo tempo, mostramos que existem alternativas viáveis sendo construídas pela sociedade, pelas mulheres, pelos índios, pelos camponeses. Então, eu acho que a Cúpula deixou essa mensagem. E deixa também uma mensagem importante de que sustentabilidade, diversidade e soberania alimentar. São temas e bandeiras de luta que precisamos cuidar para que não sejam apropriadas pelo capital. A gente pôde ver aqui perto, no Píer Mauá, uma exposição montada pelo agronegócio como evento oficial da Rio+20, onde dizem fazer agricultura sustentável, onde dizem contribuir para a preservação do meio ambiente, se apropriando de bandeiras de lutas da sociedade com uma cara-de-pau impressionante. E para nós es tá posto o desafio de dialogar com o resto da sociedade, desconstruir todo o discurso falso montado pelo agronegócio de que este seria o único modelo possível para produzir alimentos. O modelo deles é este com veneno, com transgênicos, com sementes estéreis, com alto consumo de alimentos industrializados e com grande impacto sobre o meio ambiente, ao contrário do que tentam nos fazer engolir. Aqui (na Cúpula dos Povos) estamos trazendo outra mensagem: o modelo de produção da agroecologia – que defendemos – não pode conviver com esse modelo insustentável (do agronegócio), que contribui mais e mais para destruir a biodiversidade – patrimônio da humanidade.

E você, Beth? Como avalia esta Cúpula?

Beth -
Além do que disse a Vanessa, acrescento que para mim a Cúpula dos Povos foi um grande espaço de convergência dos movimentos sociais, não só do Brasil, mas da América Latina e de outras partes do mundo. E foi muito importante para dar visibilidade para o movimento feminista. Achei importante demais estes dias em que a gente ficou convivendo aqui com os diversos movimentos. Eu acho que crescemos com isso, aprendendo a incorporar a pauta dos outros nas nossas lutas também. Eu acho que as manifestações foram maravilhosas. Todos os dias a gente via passeatas nas ruas, muita mobilização e ação direta. Acho que isso fez muito bem, não só para os movimentos, como também para a sociedade em geral – para as pessoas verem que nem tudo que está sendo feito em relação ao meio ambiente é igual. Existem diferenças, ideias diferentes, e o importante é a gente estar aqui colocando isso: existe algo diferente do que se discute na conferência oficial da ONU.


* Originalmente publicada no site da Fase
http://www.fase.org.br