quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Meio século de um desastre ambiental crescente

Por Kleber Galvêas*

Quando pequenos agricultores do Oregon (EUA) perceberam que minguava a água do riacho que abastecia a região, sem ter como causa a ausência de chuva, eles organizaram caravanas e investigaram o fato. Descobriram que castores estavam construindo uma barragem, em remanso próximo à nascente do riacho, na Cascade Range (Cordilheira das Cascatas). Como se tratava de uma área remota, no vizinho Estado de Washington, esse governo foi informado do problema e do risco que seus vizinhos corriam se a barragem se rompesse. Eles agradeceram o alerta e tomaram providências. Quando a siderurgia, na região dos Grandes Lagos, EUA, se expandiu, produzindo enorme quantidade de SO2 que, combinado com H2O (vapor de água na atmosfera), forma o H2SO4 (ácido sulfúrico), que se precipita com as chuvas (chuva ácida), “queimando” florestas. Foram os vizinhos canadenses que pressionaram, para que o problema fosse resolvido pelos americanos. Barragens são obras de engenharia construídas desde a Antiguidade. A técnica para a construção e consequência em seu rompimento é conhecida há milhares de anos.

Na era dos satélites e informática, com recursos técnicos virtuais baratos e extraordinários, se o governo do ES estivesse atento ao risco que barragens vizinhas oferecem, e “agido de maneira firme, desde o início para cobrar responsabilidade”, a batalha pela vida do Rio Doce não aconteceria. Há um mês, em palestra para 800 alunos do colégio Marista, Grande Vitória, perguntei quantos ali presentes tinham problemas com rinite ou alergia. Quase todos levantaram suas mãos. – “Óóóó...” __ foi um espanto geral.

A preocupação com a qualidade do ar na Grande Vitória se iniciou na década de 70. Se compararmos a poluição de ontem com a de hoje, veremos que era modesto o impacto ambiental naquela época. Entretanto as usinas foram se multiplicando no mesmo lugar: Ponta de Tubarão, Vitória, ES. Sempre alegavam que, se instalada a nova usina, equipamentos mais modernos seriam implantados em todas, e, assim, os níveis de poluição despencariam. Em 2008 o nível de poluição já incomodava bastante e causava enormes prejuízos à população, em bens, serviços, saúde e imagem. Já havia consenso sobre a impropriedade do local para a atividade siderúrgica. Foi quando o governo Paulo Hartung aprovou a construção da gigantesca Usina 8. Ela é quase do tamanho das 7 usinas anteriores somadas. Inaugurada em 2014, o desastre ambiental foi amplificado. Por não se tratar de um acidente, pelo tempo, gravidade, amplitude, sutileza e por alcançar direta e indiscriminadamente a todos, numa população muito maior, considero “a maior tragédia ambiental da história do país” o descaso com a poluição do ar no Espírito Santo.

 *Kleber Galvêas é pintor. galveas.com

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